Auto-Suficiência em Petróleo e os Combustíveis Renováveis.

Estamos vivendo em plena euforia (em muitos sentidos, justificável), de após tantos anos termos alcançado a auto-suficiência em petróleo, ao mesmo tempo em que o mundo, tardiamente, começa a enxergar os méritos dos programas de combustíveis renováveis, nos quais o Brasil foi pioneiro e, por isso, muitas vezes, injustamente criticado.

Manchetes nos principais jornais do mundo: o presidente Bush enfatizando o programa brasileiro em sua mensagem da União; os japoneses fazendo grandes esforços para ter acesso ao suprimento brasileiro de etanol; o país lançando um segundo programa de renováveis, o biodiesel. Ou seja, com atraso considerável, o mundo começa a reconhecer os avanços brasileiros, e o governo certamente irá capitalizar as boas novas, em um ano eminentemente político.

É preciso verificar a sustentabilidade da situação atual e a possibilidade de isto vir a se tornar um diferencial competitivo na arena energética mundial. Em primeiro lugar, a auto-suficiência em petróleo: tão difícil quanto conquistá-la, é mantê-la! A Petrobrás, como principal produtora e “agente” do governo na execução de seus objetivos, terá alguns desafios pela frente:

- reconciliar sua posição como empresa “investment grade” com a política de traços populistas de “congelamento” de preços de alguns derivados, o que poderá afetar no médio/longo prazo sua capacidade de financiar mega projetos;

- a concorrência interna por recursos finitos, envolvendo a crescente diversificação de interesses da empresa em variados setores de atividades no país e no exterior;

- o baixo nível de retorno de alguns setores da atividade (ex: geração térmica) que exigem crescentes investimentos para suportar políticas governamentais e não necessariamente objetivos empresariais.

Dito isto, a empresa vem demonstrando, nos últimos anos, uma notável melhoria de sua performance tecnológica e operacional e, certamente, tem trunfos para poder suportar estes e outros desafios, principalmente se os preços dos seus principais produtos se mantiverem nos elevados patamares atuais.

Em segundo lugar, o sucesso do programa de combustíveis renováveis, dos quais o etanol é o grande destaque. Aqui o risco continua o mesmo, e parece que os produtores de álcool e açúcar não aprenderam com a última grande crise, motivada pela perda de confiança do consumidor, ou seja, em uma commodity que produz álcool ou açúcar, com a melhoria de preços do segundo, mudam-se as prioridades na produção, e começa uma escassez do primeiro, aumentando seus preços e trazendo instabilidade no suprimento do produto.

O surgimento da tecnologia de motores multi-combustíveis diminui, mas não elimina os riscos envolvidos. A principal razão pela qual o Japão ainda não fechou grandes contratos de compra de etanol do Brasil é a dúvida quanto a segurança no suprimento, ou seja, o setor sucro-alcooleiro pode ser ele próprio seu maior inimigo.

Quanto ao biodiesel, ainda é cedo para podermos avaliar o sucesso do programa como uma fonte confiável e econômica para reduzir a grande dependência do país do diesel. Tal combustível possui um peso desproporcional no mix de produtos produzidos por nossas refinarias em virtude da grande dependência do modal rodoviário na matriz de transporte do país.

Mas, sem dúvidas, apesar do atraso na introdução do programa, é um passo na direção certa, e as lições que o setor de combustíveis teve com a introdução do álcool, serão de grande proveito para este novo produto em nossa matriz energética.

Do ponto de vista competitivo, boa parte das economias da OCDE e das grandes empresas energéticas globais estão colocando suas fichas no nitrogênio baseado no gás natural, nos veículos híbridos movidos a eletricidade, no GNC, mas nenhum desses produtos é renovável, embora alguns sejam menos poluentes do que nossos produtos renováveis misturados aos derivados de petróleo tradicionais. Quanto a economicidade, o etanol brasileiro conseguiu enormes ganhos de produtividade nos últimos anos, e deve se manter competitivo em relação aos preços de petróleo acima de US$ 30, que devem permanecer ainda por muitos anos a frente.

Concluindo, o país fez a opção correta, levando em conta suas condições de extensão de terras, capacidade instalada de produção sucroalcooleira e desenvolveu tecnologia e logística pioneiras, permitindo a introdução de produtos que atendem a dois requisitos básicos do futuro próximo: energia limpa e renovável.

Autor: Omar Carneiro da Cunha – sócio da DealMaker.
02/2006

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