Depois de anos, começa a ganhar força casamento entre telefone fixo e móvel

Mesmo assim, os telefones fixos têm suas vantagens. As chamadas são mais baratas e claras, e as conexões mais confiáveis. Daí o atual entusiasmo com a "convergência fixa-móvel", que usa uma tecnologia capaz de proporcionar o melhor dos dois mundos: a liberdade do celular e a confiabilidade dos fixos. Os assinantes usam o mesmo aparelho para fazer chamadas via linha fixa em casa ou por meio das redes móveis quando estão fora, mas têm apenas um número e uma caixa de mensagens, além de receberem uma única conta.

As chamadas são processadas dentro de casa por uma pequena estação ligada a uma conexão de internet de banda larga baseada em uma linha fixa. Essa estação-base se comunica com aparelhos próximos usando tecnologia de radiofreqüência que opera num espectro "não licenciado", sob padrões como Bluetooth ou WiFi.

O aparelho finge ser uma estação-base comum de telefonia móvel. Quando o usuário entra em casa, o telefone faz "roaming" com a estação. A ligação é despachada pelo link de banda larga, que tem capacidade para realizar várias chamadas de uma só vez.

As ligações feitas dessa maneira são cobradas como chamadas de linha fixa. Se o usuário sai de casa enquanto está fazendo a ligação, ele volta para a rede móvel.

Para operadoras de telefonia fixa, como a BT, uma das principais proponentes da convergência fixa-móvel, o apelo é óbvio: ao invés de perder espaço para os telefones móveis, as linhas fixas podem cooperar com o adversário e reconquistar algum tráfego. Um serviço fixo-móvel permitirá à BT reduzir os custos, transferindo chamadas móveis para sua rede fixa; além disso, permitirá à companhia se diferenciar das operadoras puramente móveis.

As operadoras integradas, que possuem tanto redes fixas como móveis - como a Deutsche Telekom e a NTT - também gostam da idéia. Elas podem economizar fundindo a infra-estrutura de rede e eliminando as divisões separadas de telefonia fixa e móvel.

A France Télécom, por exemplo, está se reorganizando em divisões para o consumidor e para empresas, em vez de telefonia fixa e móvel. E a Cingular - uma operadora móvel dos Estados Unidos, controlada pela BellSouth e a SBC, de telefonia fixa -, busca a convergência para melhorar a cobertura dentro de edifícios e, assim, explorar redes fixas e ganhar uma vantagem sobre outras operadoras móveis.

Até mesmo as operadoras que trabalham somente com telefonia móvel estão firmando acordos com as operadoras fixas. A convergência poderá preencher o excesso de capacidade de suas redes 3G e permitir que transfiram chamadas para redes fixas mais baratas, para cortar custos.

Em resumo, todo mundo parece gostar da idéia, porque se espera que ela vá ampliar o mercado. Os fornecedores de equipamentos também adoram a idéia, observa David Brown, da Motorola, porque além de exigir muitos equipamentos de apoio, a convergência representa a oportunidade de substituir mais de um bilhão de linhas de telefones fixos existentes.

Tudo isso soa bem, o que explica porque a idéia da convergência existe há anos. Mas somente agora ela ganha alguma força. Um dos motivos, diz Niel Ransom, da Alcatel, é o sucesso dos celulares: a convergência apenas faz sentido se todo mundo tiver seu celular, o que já ocorre nos países ricos.

Talvez o mais importante seja o surgimento de padrões. Neste mês, um consórcio incluindo Alcatel, BT, Cingular, Ericsson, Motorola, Nokia, Nortel e T-Mobile, anunciou especificações para a integração da telefonia móvel de área ampla com as redes Bluetooth e WiFi, de curta distância. Um padrão acertado significa que as operadoras podem prosseguir sem o risco de ficar presas a uma tecnologia.

A maioria dos observadores concorda que a BT é a operadora a ser observada. Em julho, ela firmou a aliança Fixed Mobile Convergence Alliance, com a NTT, a Brasil Telecom e a Korea Telecom. A tecnologia de convergência da BT, conhecida como "Bluephone", está sendo criada por um consórcio de sete empresas que inclui Alcatel, Motorola e Ericsson. A BT espera começar os testes em dezembro, em preparação para o lançamento no segundo trimestre de 2005.

Se a Bluephone der certo, provavelmente vai desencadear o lançamento de serviços parecidos em todas as partes. Operadoras de ambos os lados poderão então correr para se associar, uma vez que ser apenas móvel ou fixa não será mais viável, diz Lars Godell, da consultoria Forrester. Mais empresas também poderão seguir a France Télécom e fundir as divisões móveis e fixas. Se isso tudo se confirmar, os termos "fixo" e "móvel" poderão se tornar anacronismos em poucos anos.

Valor Econômico - 27/09/04

Comentário DealMaker

A convergência fixo-móvel é movida por 4 elementos fundamentais:

- Consolidações no mercado de telecomunicações, com grupos sendo formados com base em operações fixas e móveis dentro de um mesmo ambiente geográfico;

- Penetração acelerada do celular, garantindo uma base muito significativa para a oferta de serviços integrados para quem pode oferecê-los e um risco enorme para quem não pode.

- Ainda em função da penetração elevada de celulares, não só em numero de linhas, mas em volume de uso por cliente, as operadoras de telefonia fixa vêm se deparando com custos cada vez mais elevados de interconexão fixo-móvel. Operações integradas fixo-móvel fidelizam o cliente sob uma mesma operadora, portanto reduzem muito os custos de interconexão com terceiros.

- Evolução e consolidação de tecnologias integradas para redes fixas e móveis, como a descrita no artigo acima. Essas tecnologias não são novidades. Contudo, o forte interesse das grandes operadoras internacionais, como BT, Deutsche Telekom e outras, em desenvolvê-las de forma acessível ao mercado tem impacto imediato na sua perspectiva de amadurecimento.

No Brasil, a perspectiva da integração fixo-móvel é premente. A re-consolidação do mercado em poucos grandes grupos com atuação em fixo e móvel já é uma realidade. A Brasil Telecom, late-comer na telefonia móvel, anunciou recentemente uma estratégia agressiva que tem como pilar a oferta de serviços integrados de voz fixa e móvel. A operação integrada permite, por exemplo, que a Brasil Telecom utilize sua extensiva base de dados sobre o perfil de seus clientes para a criação de ofertas direcionadas a perfis específicos de uso. O custo de marketing também é otimizado e, para a nova operadora móvel, a alavancagem oriunda de uma marca e operação já estabelecidas, como a da Brasil Telecom, com 11 milhões de assinantes, é fator competitivo relevante. O movimento deve ser seguido de reações de concorrentes com perfis similares: Telemar/Oi, Embratel/Claro, Telefônica/Vivo. Em contrapartida, competidores independentes, como a TIM, terão que se esforçar para criar as condições necessárias para evitar a perda de competitividade: ou buscam parcerias construídas a partir da força da base de clientes que possuem atualmente, se dispondo a sacrificar parte de sua rentabilidade presente, ou começam a definir pacotes de serviços que garantam a competitividade em preço ou diferenciação de suas ofertas.

Resta pouca dúvida, contudo, de que o Brasil irá rapidamente se tornar um dos países mais avançados na oferta de serviços integrados de voz. O ambiente competitivo está maduro para isso e todas as condições que vêm impulsionando o mercado internacional se encontram presentes no país. A grande interrogação permanece sendo a posição que deverá ser adotada pela Anatel, que definirá em ultima análise o quão rápido evoluirá essa tendência no país.

 
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