Depois de anos, começa a ganhar
força casamento entre telefone fixo e móvel
(Comentário
Dealmaker)
Será que a telefonia
fixa já era? Observe os números e as tendências
e você poderá concluir que sim. Os telefones móveis
crescem rapidamente e já superam os fixos, que estão
estagnados globalmente, com queda em muitos países. Um
número crescente de pessoas, incluindo 5% dos europeus,
está "cortando o fio" e passando para a telefonia
móvel. Enquanto os telefones fixos pouco mudaram, os
móveis apresentam muitas características úteis,
como a capacidade de armazenar dezenas de nomes e números,
sem mencionar as mensagens de texto e outros serviços.
Mesmo assim, os telefones fixos têm
suas vantagens. As chamadas são mais baratas e claras,
e as conexões mais confiáveis. Daí o atual
entusiasmo com a "convergência fixa-móvel",
que usa uma tecnologia capaz de proporcionar o melhor dos dois
mundos: a liberdade do celular e a confiabilidade dos fixos.
Os assinantes usam o mesmo aparelho para fazer chamadas via
linha fixa em casa ou por meio das redes móveis quando
estão fora, mas têm apenas um número e uma
caixa de mensagens, além de receberem uma única
conta.
As chamadas são processadas dentro
de casa por uma pequena estação ligada a uma conexão
de internet de banda larga baseada em uma linha fixa. Essa estação-base
se comunica com aparelhos próximos usando tecnologia
de radiofreqüência que opera num espectro "não
licenciado", sob padrões como Bluetooth ou WiFi.
O aparelho finge ser uma estação-base
comum de telefonia móvel. Quando o usuário entra
em casa, o telefone faz "roaming" com a estação.
A ligação é despachada pelo link de banda
larga, que tem capacidade para realizar várias chamadas
de uma só vez.
As ligações feitas dessa
maneira são cobradas como chamadas de linha fixa. Se
o usuário sai de casa enquanto está fazendo a
ligação, ele volta para a rede móvel.
Para operadoras de telefonia fixa, como
a BT, uma das principais proponentes da convergência fixa-móvel,
o apelo é óbvio: ao invés de perder espaço
para os telefones móveis, as linhas fixas podem cooperar
com o adversário e reconquistar algum tráfego.
Um serviço fixo-móvel permitirá à
BT reduzir os custos, transferindo chamadas móveis para
sua rede fixa; além disso, permitirá à
companhia se diferenciar das operadoras puramente móveis.
As operadoras integradas, que possuem
tanto redes fixas como móveis - como a Deutsche Telekom
e a NTT - também gostam da idéia. Elas podem economizar
fundindo a infra-estrutura de rede e eliminando as divisões
separadas de telefonia fixa e móvel.
A France Télécom, por exemplo,
está se reorganizando em divisões para o consumidor
e para empresas, em vez de telefonia fixa e móvel. E
a Cingular - uma operadora móvel dos Estados Unidos,
controlada pela BellSouth e a SBC, de telefonia fixa -, busca
a convergência para melhorar a cobertura dentro de edifícios
e, assim, explorar redes fixas e ganhar uma vantagem sobre outras
operadoras móveis.
Até mesmo as operadoras que trabalham
somente com telefonia móvel estão firmando acordos
com as operadoras fixas. A convergência poderá
preencher o excesso de capacidade de suas redes 3G e permitir
que transfiram chamadas para redes fixas mais baratas, para
cortar custos.
Em resumo, todo mundo parece gostar da
idéia, porque se espera que ela vá ampliar o mercado.
Os fornecedores de equipamentos também adoram a idéia,
observa David Brown, da Motorola, porque além de exigir
muitos equipamentos de apoio, a convergência representa
a oportunidade de substituir mais de um bilhão de linhas
de telefones fixos existentes.
Tudo isso soa bem, o que explica porque
a idéia da convergência existe há anos.
Mas somente agora ela ganha alguma força. Um dos motivos,
diz Niel Ransom, da Alcatel, é o sucesso dos celulares:
a convergência apenas faz sentido se todo mundo tiver
seu celular, o que já ocorre nos países ricos.
Talvez o mais importante seja o surgimento
de padrões. Neste mês, um consórcio incluindo
Alcatel, BT, Cingular, Ericsson, Motorola, Nokia, Nortel e T-Mobile,
anunciou especificações para a integração
da telefonia móvel de área ampla com as redes
Bluetooth e WiFi, de curta distância. Um padrão
acertado significa que as operadoras podem prosseguir sem o
risco de ficar presas a uma tecnologia.
A maioria dos observadores concorda que
a BT é a operadora a ser observada. Em julho, ela firmou
a aliança Fixed Mobile Convergence Alliance, com a NTT,
a Brasil Telecom e a Korea Telecom. A tecnologia de convergência
da BT, conhecida como "Bluephone", está sendo
criada por um consórcio de sete empresas que inclui Alcatel,
Motorola e Ericsson. A BT espera começar os testes em
dezembro, em preparação para o lançamento
no segundo trimestre de 2005.
Se a Bluephone der certo, provavelmente
vai desencadear o lançamento de serviços parecidos
em todas as partes. Operadoras de ambos os lados poderão
então correr para se associar, uma vez que ser apenas
móvel ou fixa não será mais viável,
diz Lars Godell, da consultoria Forrester. Mais empresas também
poderão seguir a France Télécom e fundir
as divisões móveis e fixas. Se isso tudo se confirmar,
os termos "fixo" e "móvel" poderão
se tornar anacronismos em poucos anos.
Valor
Econômico - 27/09/04
Comentário
DealMaker
A convergência fixo-móvel
é movida por 4 elementos fundamentais:
- Consolidações no mercado
de telecomunicações, com grupos sendo formados
com base em operações fixas e móveis dentro
de um mesmo ambiente geográfico;
- Penetração acelerada
do celular, garantindo uma base muito significativa para a oferta
de serviços integrados para quem pode oferecê-los
e um risco enorme para quem não pode.
- Ainda em função da penetração
elevada de celulares, não só em numero de linhas,
mas em volume de uso por cliente, as operadoras de telefonia
fixa vêm se deparando com custos cada vez mais elevados
de interconexão fixo-móvel. Operações
integradas fixo-móvel fidelizam o cliente sob uma mesma
operadora, portanto reduzem muito os custos de interconexão
com terceiros.
- Evolução e consolidação
de tecnologias integradas para redes fixas e móveis,
como a descrita no artigo acima. Essas tecnologias não
são novidades. Contudo, o forte interesse das grandes
operadoras internacionais, como BT, Deutsche Telekom e outras,
em desenvolvê-las de forma acessível ao mercado
tem impacto imediato na sua perspectiva de amadurecimento.
No
Brasil, a perspectiva da integração fixo-móvel
é premente. A re-consolidação do mercado
em poucos grandes grupos com atuação em fixo e
móvel já é uma realidade. A Brasil Telecom,
late-comer na telefonia móvel, anunciou recentemente
uma estratégia agressiva que tem como pilar a oferta
de serviços integrados de voz fixa e móvel. A
operação integrada permite, por exemplo, que a
Brasil Telecom utilize sua extensiva base de dados sobre o perfil
de seus clientes para a criação de ofertas direcionadas
a perfis específicos de uso. O custo de marketing também
é otimizado e, para a nova operadora móvel, a
alavancagem oriunda de uma marca e operação já
estabelecidas, como a da Brasil Telecom, com 11 milhões
de assinantes, é fator competitivo relevante. O movimento
deve ser seguido de reações de concorrentes com
perfis similares: Telemar/Oi, Embratel/Claro, Telefônica/Vivo.
Em contrapartida, competidores independentes, como a TIM, terão
que se esforçar para criar as condições
necessárias para evitar a perda de competitividade: ou
buscam parcerias construídas a partir da força
da base de clientes que possuem atualmente, se dispondo a sacrificar
parte de sua rentabilidade presente, ou começam a definir
pacotes de serviços que garantam a competitividade em
preço ou diferenciação de suas ofertas.
Resta pouca dúvida, contudo, de
que o Brasil irá rapidamente se tornar um dos países
mais avançados na oferta de serviços integrados
de voz. O ambiente competitivo está maduro para isso
e todas as condições que vêm impulsionando
o mercado internacional se encontram presentes no país.
A grande interrogação permanece sendo a posição
que deverá ser adotada pela Anatel, que definirá
em ultima análise o quão rápido evoluirá
essa tendência no país.